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I am burning with desire to see your experiments from nature”, escreve Daguerre a Niépce, em 1828, referindo-se aos primeiros desenvolvimentos daquilo que se tornaria a Fotografia. O projeto, apropriando-se dessa frase, tem como objeto a natureza que interrompe o contínuo inorgânico das cidades e assenta na desconstrução do dualismo ser humano/natureza, sujeito/objeto, orgânico/inorgânico e artificial/natural.

O projeto interroga aquilo que o pensamento contemporâneo chama Natureza, e o seu lugar incerto na linguagem, tendo como ponto de partida a Estufa Fria (Lisboa) e o Jardim Botânico (Porto) – espaços de descontinuidade espácio-temporal face ao meio envolvente. Apesar de o conceito que hoje temos de natureza ser, certamente, muito diferente daquele a que se referia Daguerre, a frase tem a curiosa particularidade de colocar a fotografia como sendo uma experimentação da natureza (experiments from nature), envolvendo-a como parte do processo e não como objetificação da realidade ou fetichização da técnica. 

Este projeto do coletivo Imagerie (José Domingos, Magda Fernandes, Sofia Berberan), com curadoria de Vanessa Badagliacca, desenvolve-se numa lógica site-specific nos dois espaços de apresentação. As condições dos espaços escolhidos (que sendo biomas artificiais no tecido urbano, têm condições específicas controladas, como humidade, rega, condições de luz e sombra, elementos de deterioração e corrosão da materialidade fotográfica) transformam-se em elementos performativos.

O projeto experimenta várias técnicas e conceitos no âmbito da imagem fotográfica, determinados por pressupostos ético-estéticos. Por um lado questiona a construção cultural dos “modos de ver” – antropomórficos e antropomorfizantes – e por outro é também uma reflexão sobre a materialidade – condenada à corrosão na sua relação com o meio – onde a própria técnica não é meramente um veículo teórico mas uma experiência sensorial.

Os objetos fotográficos apresentados refletem a vitalidade imanente da matéria, o seu ciclo vital de nascimento e morte, como a natureza que os rodeia. Os ciclos naturais de regeneração, morte e dormência são o objeto central do trabalho desenvolvido pelos autores. 

Burning with desire to see your experiments from nature é um projeto apoiado pela República Portuguesa – Cultura | DGARTES – Direção-Geral das Artes, pela Câmara Municipal de Lisboa, pelo Jardim botânico do Porto e pelo 5D_CreativeHub, em parceria com a Estufa Fria de Lisboa e o Instituto de História da Arte (NOVA-FSCH).

Programação

Mesa Redonda “À flor da pele – práticas da fotografia contemporânea em tempos incertos. 

14 de outubro, 18:00 – 19:30 | Jardim Botânico da Universidade do Porto

Entrada livre

A partir das relações entre fotografia e Antropoceno exploradas na intervenção do filósofo Giovanbattista Tusa*, esta mesa redonda procurará debater e aprofundar os projectos apresentados na exposição e contará com a presença dos membros do Colectivo Imagerie, José Domingos, Magda Fernandes e Sofia Berberan.
Curadoria e moderação: Vanessa Badagliacca (Investigadora IHA, NOVA-FCSH)

*Giovanbattista (Giovanni) Tusa é um filósofo baseado em Lisboa, onde é actualmente Investigador em Filosofia e Ecologia no Instituto de Filosofia (IFILNOVA) da Universidade Nova de Lisboa.
O seu último trabalho, De la Fin, em coautoria com Alain Badiou, foi publicado em França em 2017 e depois traduzido com novos ensaios originais em inglês (The End, Polity Press, UK), português (Do Fim, Cultura e Barbárie, Brasil), e espanhol (Acerca del fin, Tinta Limon Ediciones, Argentina). Trabalhou como editor e tradutor de francês e inglês para a edição italiana de L’equivalence des catastrophes e Exclu le juif en nous de Jean Luc-Nancy, Á la recherche du réel perdu, de Alain Badiou, Be my body for me. Domination and Servitude in Hegel, de Catherine Malabou e Judith Butler, e Edward Said’s Freud and the Non-European.
A sua investigação multidisciplinar actual examina política radical, cinema, ecocrítica, realismo ontológico, e animal studies.

Exposição “Burning with desire to see your experiments from nature”

9 de outubro a 7 de novembro de 2021, Jardim Botânico da Universidade do Porto

Inauguração 9 de outubro das 16:00 às 18:00

Mesa Redonda “À flor da pele – práticas da fotografia contemporânea em tempos incertos. 

21 de setembro, 18:00 – 19:30 | Centro Interpretativo da Estufa Fria, Lisboa

Gratuito | vagas limitadas | inscrição prévia obrigatória através do email 
geral@imagerieonline.com

A partir das relações entre fotografia e Antropoceno exploradas na intervenção do filósofo Giovanbattista Tusa*, esta mesa redonda procurará debater e aprofundar os projectos apresentados na exposição e contará com a presença dos membros do Colectivo Imagerie, José Domingos, Magda Fernandes e Sofia Berberan.
Curadoria e moderação: Vanessa Badagliacca (Investigadora IHA, NOVA-FCSH)

*Giovanbattista (Giovanni) Tusa é um filósofo baseado em Lisboa, onde é actualmente Investigador em Filosofia e Ecologia no Instituto de Filosofia (IFILNOVA) da Universidade Nova de Lisboa.
O seu último trabalho, De la Fin, em coautoria com Alain Badiou, foi publicado em França em 2017 e depois traduzido com novos ensaios originais em inglês (The End, Polity Press, UK), português (Do Fim, Cultura e Barbárie, Brasil), e espanhol (Acerca del fin, Tinta Limon Ediciones, Argentina). Trabalhou como editor e tradutor de francês e inglês para a edição italiana de L’equivalence des catastrophes e Exclu le juif en nous de Jean Luc-Nancy, Á la recherche du réel perdu, de Alain Badiou, Be my body for me. Domination and Servitude in Hegel, de Catherine Malabou e Judith Butler, e Edward Said’s Freud and the Non-European.
A sua investigação multidisciplinar actual examina política radical, cinema, ecocrítica, realismo ontológico, e animal studies.

Exposição “Burning with desire to see your experiments from nature”

4 a 30 de setembro de 2021, Estufa Fria, Lisboa

By Nature’s Hand – Lisboa

oficina experimental de processos fotográficos alternativos

10 a 13 de agosto

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Jardim Botânico da Universidade do Porto

Jardim Botânico da Universidade do Porto

9 de outubro a 7 de novembro de 2021

Text in english

O desejo humano de conhecer e perceber o mundo e as suas manifestações visíveis encontra uma possibilidade de realização com o aparecimento da fotografia. É deste modo que “I am burning with desire to see your experiments from nature” – célebre frase de uma carta de Daguerre dirigida a Niepce nos primórdios do desenvolvimento deste meio – é convocada como título da exposição do Colectivo Imagerie, não apenas como fonte de inspiração, mas como um método para pensar a fotografia e os seus processos.
As três propostas – de José Domingos, Magda Fernandes e Sofia Berberan – surgem da residência artística realizada no Jardim Botânico da Universidade do Porto, e procuram explorar o fotográfico, ou seja, um conjunto de conceitos e reflexões para pensar e sentir a imagem fotográfica num espaço que também convida a pensar e problematizar o que entendemos hoje por natureza.
A experiência com o lugar proporciona encontros com os ciclos vitais das plantas que aqui habitam, e que desvelam a história deste espaço num diálogo simbiótico entre a arquitectura vegetal e a organicidade estrutural das estufas abertas e fechadas. Uma área de preservação botânica com características específicas para aclimatar algumas espécies convive ao lado da sua própria arqueologia, habitada por variedades que definir em alguns casos como invasoras ou espontâneas seria redutor, acabando por levar-nos a questionar as fronteiras destas definições. E neste intervalo espacial entre umas e outras estruturas ainda podemos seguir outros caminhos, desta vez apenas com o andar dos olhos ao observar alguns destes vidros protectores.
São os trilhos dos caracóis, percursos que equilibram a linearidade e geometria dos espaços desenhados pela mão humana e que nunca avançam em linhas rectas, desenhando topografias e paisagens como vistas aéreas. É este o percurso que Magda Fernandes nos convida a atravessar com os seus estudos sobre a superfície, que são também uma oscilação entre uma observação lenta que é própria da fotografia experimental e o seu registo volátil, como pó de clorela que dá forma a uma imagem se exposto à luz e desvanece num sopro, ou uma folha de árvore que alterará o seu estado num curto período de tempo.
As sobreposições de texturas são exploradas nas colagens nas impressões fotográficas em folhas de hibisco sobre folhas de papel bordadas a vermelho com elementos arquitectónicos que são reconhecíveis passeando por este jardim botânico. Se uma folha de papel é um armazém, que pode conter palavras escritas, desenhos, imagens impressas com a luz, tal como a folha de uma árvore armazena a luz solar, será possível descrever por cima de folhas vegetais – nas quais estão impressas imagens de outras plantas que moram neste jardim – uma estufa, estantes para vasos, uma porta? É preciso uma árvore para fazer uma casa, tal como é preciso um jardim para construir uma cidade. Nesta alteração de escala onde se guardam umas imagens e se sobrepõem outras, onde a luz se imprime, podemos reencontrar uma relação com o espaço que ocupamos, como o habitamos e com quem.
A reflexão sobre o fotográfico no trabalho de Sofia Berberan é abordada por uma metafotografia, que opera não por meio de processos fotográficos experimentais, mas por uma representação ao nível do simbólico através de uma performatividade em que a figura humana e fotografia se tornam um só corpo. Numa primeira fase de captura, procura-se estabelecer uma relação entre fotografante e fotografado. Ao disparar da máquina fotográfica o olho fecha-se e não vê e naquele instante de cegueira Captura-se uma imagem que prende quem está de um lado e do outro da objectiva numa rede que se materializa visualmente pelos limos que vivem na paisagem aquática onde se insere esta instalação, guardando um momento que já passou – como indica a escrita que alguém deixou por cima deste tanque, “just memory”.
A ideia de ardência é associada por um lado a um incontentável desejo de ver, como também a uma potência destruidora de Devoração, que se manifesta tanto na planta carnívora que gradualmente se irá apropriando da imagem, como no vermelho da roupa e das flores da árvore do fogo (que se encontra neste jardim) que ocultam o rosto impossibilitado de cumprir o seu desejo, a não ser acabando por sucumbir a ele. Segue uma última fase de Ressurreição, tomando este título a partir da planta que hospeda cada uma destas imagens e cuja particularidade é de, apesar de estar morta, reagir aos estímulos vitais ora abrindo-se e fechando-se, ora em tonalidades verdes e outras acastanhadas. Neste contacto entre botânica e fotografia procura-se, entretanto, uma relação de reciprocidade entre luz e olho, remetendo para um desejo de fotografar que não é tanto ligado a uma técnica inventada num momento histórico específico, quanto a um desejo primordial de ver do ser humano, que culmina numa espécie de alucinação visual.
Esta teatralização da figura humana numa luminosidade incorpórea e incandescente, contrasta com as plantas envolventes, seres capazes de absorver e alimentar-se de luz e “olhar” para o sol mantendo o próprio cromatismo em tons de verde, cor que simboliza vitalidade ao mesmo tempo que proporciona um efeito calmante no olhar humano.
José Domingos conduz-nos numa viagem pelo tempo através de uma cinefotografia que fragmenta sequências temporais abrindo espaços de memória, de demora, numa escuta rítmica como com o som de uma câmara lomokino em accão, ou os pássaros que voam por este jardim, ou até o ruído constante e próximo dos carros, que nos relembra a nossa localização dentro da malha urbana, em contraponto à observação desacelerada que nos é proposta. Deste modo, uma folha de papel apoiada por cima de uma parede de uma antiga estufa – quase como uma peça de vestuário numa figura pintada ou esculpida – oscila entre as pedras que tentam prendê-la e o vento que a agita, até uma provável Queda. No entanto, a própria folha parece animar-se e colorir-se passando ao plano tridimensional com a sobreposição de três impressões num verde destinado a desvanecer pela exposição solar e outros agentes atmosféricos, e que mostram uma imagem de arquivo com uma das estufas deste jardim no tempo em que foi inaugurado em meados do século passado.
A cor e a vida aquática das algas conectam-se com algumas espécies botânicas que se juntam e amontoam em alguns dos tanques das estufas. Qualquer tentativa de Afastamento entre elas será apenas momentânea e os espelhos de água que o movimento da mão revela, gerando formas variadas e casuais, rapidamente será ocultado por estes organismos tão antigos que nos permitem ligar o nosso presente às primeiras formas de vida no planeta. A própria técnica fotográfica, ao conviver e experienciar este ecossistema subaquático num Mergulho do próprio rolo antes de ser revelado encontra um duplo acaso, já que o processo da fotografia analógica obriga sempre a considerar uma eventual perda que se pode tornar um feliz encontro de imagens e texturas.
Na reflexão sobre o fotográfico que o Colectivo Imagerie apresenta neste conjunto de criações diferenciadas e dialogantes, podemos reconhecer uma consciência ecológica que se manifesta no entendimento de múltiplas formas de temporalidades que coexistem e que nos convida a observar com novos olhos a natureza em que os trabalhos apresentados se inserem e não só. No meio da crise ambiental e do contexto pandémico à escala global que estamos a viver, aceitar um convite para o reencantamento como este é certamente desejável.

Vanessa Badagliacca

Exposições

Estufa Fria de Lisboa

4 a 30 de setembro de 2021

Text in English

Entre o desejo de ver como pulsão e curiosidade, e a natureza, conceito móvel e que nos dias de hoje nos obriga a reflectir sobre o impacto da humanidade no planeta, há um lugar de acção e de experiências, que se concretiza na fotografia experimental. É deste modo que “I am burning with desire to see your experiments from nature” – célebre frase de uma carta de Daguerre dirigida a Niepce nos primórdios da fotografia – é convocada como título da exposição do Colectivo Imagerie, não apenas como fonte de inspiração, mas como um método para pensar a fotografia e os seus processos.

Em analogia com a estrutura tripartida da Estufa – Fria, Quente e Doce –, não de forma propositada, mas como desenvolvimento orgânico da residência artística realizada neste espaço, as três propostas – de José Domingos, Magda Fernandes e Sofia Berberan – compõem-se por tríades em que cada momento se posiciona em continuidade com os outros dois. Estas triangulações são núcleos que se intersectam, tal como a forma de trabalhar em colectivo que estes três autores têm vindo a desenvolver. Neste lugar intermédio, entre o desejo e o discurso que o título evoca, encontra-se o território da fantasia que se materializa na fotografia.

Comecemos pelas pedras. Imaginemos este espaço como se fosse observado por uma pedra, depois outra, mais uma ainda e assim sucessivamente; um objecto que podemos segurar nas mãos, cujo “olho” poderia estar num sítio qualquer das suas faces. O que poderia ver, o que nos poderia contar deste espaço: será esta narrativa mesmo possível? É este o desafio que José Domingos coloca ao inserir câmaras estenopeicas que passam plenamente despercebidas na estrutura onde se inserem. O resultado produz múltiplas perspectivas que ampliadas provocam uma multiplicidade vertiginosa em que parece sermos imersos numa floresta tropical em que a escala humana é inevitavelmente reduzida.

No entanto, os pormenores arquitectónicos que ficam impressos na imagem trazem-nos de volta para este espaço verdejante que se insere na malha urbana, deixando-nos num lugar intermédio entre uma perspectiva que descentraliza a nossa passagem humana por este espaço ao mesmo tempo que nos informa de se tratar de um espaço controlado e cuidado pela mão humana. Uma oscilação entre um controlo que remete para as câmaras de vigilância e consequente tradição de relação entre fotografia e poder, e a desobediência, subvertendo este código através de um processo fotográfico experimental em que a mão do fotógrafo é apenas um intermediário de imagens cujos resultados são imprevisíveis. Imagens escritas dentro de pedras, com a luz e a ausência dela.

Esta oscilação entre peso e leveza mostra-se também nos volumes destas câmaras expostos quase suspensos por cima de um leito vegetal como se fossem flores ou criaturas voláteis. Formas que tornam visíveis elementos que a um olhar menos atento e de passagem por este espaço passariam completamente despercebidos. E, no entanto, as câmaras que estas pedras são, ou que mimeticamente reproduzem formas minerais, também nos interrogam sobre o estar das coisas, dos elementos mais que humanos independentemente do nosso olhar sobre eles, da nossa acção sobre e com eles.

A fotografia como acto de atenção numa perspectiva mais que humana, em que o fotógrafo se torna de alguma maneira figura mediadora é explorada por Magda Fernandes a partir do comportamento dos espécimes botânicos presentes neste jardim, em relação com factores diferentes, desde a luz solar filtrada, que atravessa o tecto de ripas, à rega faseada em momentos específicos do dia, o processo fotográfico torna-se propositadamente uma espécie de facilitador da aparição da imagem. Estacas que normalmente são utilizadas para indicar a denominação de uma espécie botânica apresentam lumens que abrem janelas sobre outras vistas possíveis no meio da vegetação envolvente que procuram captar.

A tentativa de registar o movimento das plantas, as sombras, as alterações de luz neste espaço dependendo da hora, manifesta-se em processos fotográficos que tornam visíveis momentos efémeros, que fogem ao olhar humano, e com que mais uma vez somos transportados num território imaginário. Esta procura de compreensão do ser vegetal não se realiza apenas pela observação, mas incorpora-se numa exploração performativa em que fotógrafa e fotografia colidem numa tensão para se tornarem planta ou um ser intermédio entre a terra e o céu, numa aproximação à natureza que altera as relações convencionais entre sujeito e objecto, permitindo que a natureza se retrate a si própria, que a fotografia se fotografe a si própria.

A investigação sobre o meio fotográfico – mais uma vez atravessada por uma performatividade em que a figura humana e fotografia se tornam um só corpo – é levada ao plano do simbólico no trabalho de Sofia Berberan, uma meta-fotografia que se propõe reflectir sobre si própria com uma linguagem figurativa que procura ocultar qualquer forma de fácil representação. Trata-se de imagens impermanentes e mutáveis pelas condições atmosféricas a que estão sujeitas, tal como todas as que estão presentes nesta exposição.

Em Shoot (Nymphoides peltata), palavra que reúne os significados de disparo, fotográfico ou de uma arma, e também de rebento vegetal, a figura humana disposta horizontalmente está prestes a desaparecer pela acção dos agentes que habitam o ambiente subaquático onde se insere. Tentativa de materializar a dualidade oposta entre a fotografia que mata e faz morrer e onde o único sobrevivente é uma planta – um nenúfar no caso específico. A reconfiguração da imagem por múltiplas esferas em Falling (Adiantum capillus-veneris) parece novamente aludir a uma dimensão desejante de quem fotografa e que nesse mesmo acto, em que dispara e não vê, é destinado à queda e a sua própria destruição. O desejo de ver, como indicado em sentido etimológico no título Scopophilia (Hedera helix), acto fatal e audacioso, é associado ao veneno (às bagas venenosas da hera), de modo que à medida que este desejo é saciado pela figura de olhos abertos que se alimenta das plantas, está destinada a sucumbir. Neste processo em que fotografia e fotografante se aliam em predar imagens fotografadas, existe uma lei natural e não escrita em que esta atitude extractivista é inevitavelmente vencida – como simbolicamente é mostrado nestes trabalhos em que afinal quem resiste são sempre os seres vegetais. 

Se por um lado José Domingos e Magda Fernandes proporcionam possibilidades sustentáveis da fotografia em coexistência com os mundos mais que humanos, Sofia Berberan mostra-nos as consequências que uma atitude predatória da fotografia pode ter. E se associarmos novamente a fotografia com a fantasia pelos percursos que o Colectivo Imagerie nos convida a trilhar, nesta vertigem, nesta incerteza, neste abandono aos fenómenos contingentes e impermanentes, neste território limiar entre natureza e cultura, de serendipidade e encontros imprevistos podemos encontrar novas maneiras de estar e viver em relação com a natureza de que formamos parte. No meio da crise ecológica e do contexto pandémico à escala global que estamos a viver, aceitar um convite para o reencantamento como este é certamente desejável.

Vanessa Badagliacca

Atividade Paralelas

  • By Nature’s Hand – Lisboa

    “By nature’s hand” é uma oficina experimental de processos fotográficos alternativos inserida na programação do projeto “burning with desire to see your experiments with nature”, do coletivo Imagerie.

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